Chá das cinco com o vampiro nasceu e vive sob o signo da polêmica.
Para alguns dos defensores, o mérito é revelar, com tintas carregadas, o quotidiano literário curitibano dos anos finais do século XX, expondo sua endogamia e as idiossincrasias de quem o centralizava, Dalton Trevisan.
Para os críticos, o demérito do livro é trocar a literatura pela mexerico. Alguns foram mais longe e o acusaram de destilar ressentimento e buscar evidência às custas de uma celebridade literária.
Li o livro logo que saiu e, desde então, acompanhei as resenhas. Acompanhei também o blog que Miguel Sanches Neto, o autor, criou para responder a críticas. Passados dois meses, confesso duas coisas: primeiro, que não alinho minha leitura em nenhuma das trincheiras; segundo, que acho que o livro ainda não foi lido pelo prisma da literatura.
Sim, sei da presunção que a segunda constatação encerra: dispor-me a ler o que outros, e mais qualificados, não leram. Se assim a entenderam, por favor, me desculpem. Ocorre que vivemos num país afeito a polêmicas, lugar em que facilmente se toma a discordância por ofensa pessoal, ambiente tantas vezes hostil ao dissenso — por mais que preguemos nossa tolerância e até encontremos um ou outro exemplo histórico a confirmá-la.
Parte de nossa imprensa cultural instiga o confronto e prefere sangue a ideias, sedenta de uma vendagem maior. Foi assim, para ficar num só caso, que dois dos maiores intelectuais brasileiros, lá pela metade da década de 1980, trocaram xingamentos. O jornal vendeu feito água e nós, leitores, ficamos sabendo que um era “doente e cretino” e o outro… Deixemos para lá.
Em bom português, sob a aparência da tolerância, nosso universo cultural é quase sempre mesquinho, encerrado em grupinhos e clubes semi-secretos, que fazem tanto bem à vaidade de seus integrantes quanto mal à produção cultural geral.
É isso que o livro de Sanches Neto expõe. Sinceramente não me interessa se o alvo conjuntural é Trevisan e se outros intelectuais estão ali, travestidos em personagens mais ou menos dignos.
Não leio ficção — e sempre alerto meus alunos para que também não o façam — como jogo de espelhos da realidade. Vale lembrar que continua válida a célebre distinção, de vinte e poucos séculos, que lembra que o compromisso da ficção é com a imaginação, não com o que efetivamente se passou.
Tampouco me importa quais são as estratégias de fulano ou de beltrano para obter sucesso ou os acertos de contas que o passado por ventura legou ao presente. Até intuo que não é o caso — a obra de Sanches Neto é suficientemente sólida para que dispense atalhos. Simplesmente leio e, ao ler, avalio — com critérios certamente questionáveis, mas pouco a pouco consolidados em mais de quarenta anos de vida entre livros — o que está à minha frente. Dimensões pessoais, ideológicas ou demais elementos alheios ao que está nas páginas do livro, a princípio, não me interessam.
Foi assim que li Chá das cinco com o vampiro. Foi assim que encontrei mais coisa por lá, além do diagnóstico sombrio acerca da acrítica idolatria literária, além da exposição algo crua sobre a arrogante e anacrônica hierarquia linear dos grupelhos culturais.
Lá encontrei uma das chaves da discussão literária: o contraste entre personas literárias. De um lado, o instável narrador; de outro, o vampiro — que ultrapassa, como personagem, a metáfora do título que o caricatura como decadente. O narrador quase inexiste como tal: ele busca ser escritor, mas só o é de forma bissexta. O vampiro já foi um grande escritor e aos poucos se dilui nas mimetizações que outros e ele mesmo fazem de seus grandes textos.
O confronto é óbvio: enquanto um se constrói, outro se desfaz. O narrador não é pleno, nem sua formação se completa. Seu universo íntimo é identicamente mofino e a carreira literária, frágil e errática. Mais do que escritor, ele se faz leitor obsessivo, mas o imenso repertório não se traduz em obra consistente.
O reconhecimento da obra do vampiro, por sua vez, o fecha num labirinto, do qual não consegue, ou quer, escapar: a figura pública, como sempre, ultrapassa o sujeito comum e sua mesquinharia o atordoa – mais, inclusive, do que mexe com seus seguidores ou leitores, que fácil e prazerosamente substituíram o homem pelo mito. E as limitações prosseguem: o suposto experimentalismo dos textos escritos depois da fama, expresso na concisão de seus escritos, pode esconder apenas a repetição e a mesmice — ele sabe disso, mesmo que a crítica prefira fechar os olhos.
Ambos mostram paradoxos do ofício literário. São espelhos distorcidos do sonho da consagração cultural, e acabam igualmente derrotados: um, no mundo empoeirado das bajulações gratuitas; outro, pelo retorno às origens pessoais que negavam seu desejo literário.
O livro de Sanches Neto tem muitos méritos e comprova o domínio técnico que seus escritos anteriores já revelavam. Mas, longe das inconfidências que tantos preferiram destacar — e independentemente, repito, de sua ocasional veracidade —, ele traz algo assustadoramente incomum na ficção brasileira atual: mostra os rumos da deformação literária. Um romance de formação às avessas, e extremamente necessário.
Miguel Sanches Neto. Chá das cinco com o vampiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010
eu tentei achar um livro dele em uma livraria mas não tinha nenhum. continuo tentando. beijos, pedrita
Júlio tudo bem, achei bastante instigante sua crítica, embora não tenha acompanhado toda a polêmica, concordo plenamente de que as idéias valem bem menos que as polêmicas na nossa imprensa.Vou ver se consigo um tempinho, em meio a tantas leituras do mestrado e consiga ler o livro. Abraços Nelson
Pedrita & Nelson,
tudo bem?
Vale a pena ler o livro, sim. Além da qualidade literária, lança discussões importantes.
Abraços,
Júlio
Olá Júlio,
Ainda não li “Chá das cinco com o vampiro” justamente porque acompanhei toda a polêmica durante o seu lançamento e a repercussão positiva e negativa na mídia. Bom saber que a obra também é importante pelo prisma literário – que deve ser o principal olhar para um texto ficcional. Esperarei mais um pouco para lê-lo, mas obrigado pela ótima resenha.
Abraços.
Marcos,
obrigado.
Creio que a maior polêmica ocorreu no Paraná. No entanto, algumas resenhas a amplificaram para Rio e São Paulo.
Importante é perceber que o livro não se resume a ela.
Abraços,
Júlio
Li livro depois de assistir à entrevista do autor no “Espaço Aberto Literatura”.
Superou em muito as minhas expectativas. É pura literatura! Como não sou paranaense não tenho obrigação de lê-lo como um roman a clef.
Para mim este romance de Sanches Neto é uma reflexão metaliterária sobre a condição do intelectual brasileiro contemporâneo.
Lembrou-me o Recordações do Escrivão Isaías Caminha, um dos meus livros preferidos.
A diferença é que no romance do meu querido Lima Barreto o candidato a escritor se torna funcionário público e no de Sanches Neto, contemporâneo, torna-se produtor de soja.
Muito bem! Cada época com a sua tragicomédia
Denis,
tudo bem?
Acho que a “sensação de se sentir envolvido” pesa mesmo muito na leitura do livro: tanto para escritores paranaenses, quanto para aqueles que têm algum vínculo com os supostamente citados. E assim se perde o melhor.
Abraços,
Júlio
júlio, terminei de ler diário de um pároco de aldeia do georges bernanos e coloquei no meu blog. beijos, pedrita
Pedrita,
tudo bem?
Não li. Darei uma olhada lá.
Beijos,
Júlio